Há dias em que a realidade parece sólida demais, pesada demais, e ao mesmo tempo terrivelmente incompleta. Você olha ao redor – para a rotina, para as notícias, para o próprio espelho – e percebe que o cenário está montado, mas não só a peça não começou, como há burburinho de que também o diretor faltou sem dar explicações. É como se fôssemos todos estrangeiros visitando um lugar que deveríamos reconhecer, mas não conseguimos. Há essa suspeita persistente, às vezes latente, às vezes irrompendo com força sobre seu peito, de que aqui não é seu lugar, de que você está cosmicamente perdido. Mas essa sensação claustrofóbica de não saber o que há por trás das cortinas, nem se haverá peça, não é loucura; é o começo da lucidez.
Os antigos místicos judeus olharam para esse mesmo cenário e criaram uma disciplina inteira – a Cabalá –, com categorizações e conceitos, como tentativa de responder a esta ansiedade crônica do bicho homem.
Na Cabalá, o mundo é uma vestimenta (levush). Nosso mundo material, Olam HaAsiyah, é a última das emanações do Infinito. Os cabalistas o chamam de hester panim – o mundo da ocultação do rosto. Mas ocultação não é falsidade. Um véu não nega o rosto; ele o torna suportável.
A luz infinita, o Eyn Sof, não tem limite, não tem borda, não tem onde começar ou parar. Se ela tocasse a matéria diretamente, não haveria matéria; haveria apenas Luz. Para que algo pudesse existir além dela, ela precisou se contrair, e nessa contração, deixar espaço para que os recipientes (keilim) fossem formados. O mundo é esse recipiente. Nós somos esse recipiente.
Então quando você olha para a realidade e pergunta “isto aqui é real?”, a resposta cabalística é: o Véu é real. O que está por trás do véu é mais real ainda. E você, que está fazendo a pergunta, é exatamente o ponto onde essas duas realidades se encontram – Malchut, o Reino, a última sefirá, a borda onde o Infinito toca o finito.
O mundo foi criado quebrado…
O evento que os cabalistas chamam de Shevirat HaKeilim – a quebra dos vasos – descreve um momento cosmológico em que os recipientes primordiais não conseguiram conter a luz que receberam e se fragmentaram. Fagulhas da Luz ficaram aprisionadas dentro dos cacos.
E esse processo foi proposital.
Um mundo perfeito, entregue pronto, não permite participação. A perfeição dada é o pão da vergonha, sobre o qual voltaremos. O mundo quebrado é o mundo que nos convoca. Cada fragmento de luz aprisionada num caco é uma tarefa, é um tikkun. Essa palavrinha, tikkun, que eu usarei bastante aqui neste texto, pode ser traduzida simplesmente como “retificação”.
A ansiedade que você sente quando olha para o estado do mundo, ou para o estado de si mesmo, e pensa que isto aqui simplesmente não está certo – você não é anormal, você não é doente, você está vendo certinho. E, quanto mais sensível estiver sua alma, mais ela sentirá o peso de um vaso quebrado, reconhecendo que há luz dentro do caco que ainda não foi libertada.
A angústia crônica é um equívoco espiritual, mas um equívoco que tem seu fundamento. O que falta é ajustar o foco. A angústia aponta para o vaso como se o vaso fosse a realidade. O vaso não é a realidade, a Luz dentro dele é que é real. Precisamos olhar para dentro do vaso e constatar a existência da Luz.
…porém, o ajuste de foco também é tikkun.
Na lógica cabalística, não existe um único caminho correto gravado em algum lugar que você precisa encontrar antes que o tempo acabe. A vida não vem com manual de instruções, se você gosta desta frase. Não é receita de bolo.
O que existe é um processo de retificação da alma, e esse processo é dinâmico. Se um caminho não está refinando o que precisa ser refinado em você – se uma escolha, uma relação, uma vocação não está servindo ao seu tikkun –, você pode e deve buscar outra combinação. O Sefer Yetzirah, o Livro da Formação, descreve o mundo como sendo criado por combinações de letras e números. A realidade é combinatória. É uma linguagem viva.
Ela é um videogame de mundo aberto, não um de fases lineares. Está mais para The Legend of Zelda que para Super Mario. (Aliás, eu tenho a impressão de que Zelda realmente emprestou algumas coisas do misticismo judaico. Vou jogar para descobrir. Não sei quando.)
Você não está atrasado. Você não errou o caminho definitivamente. Você está num ponto específico de um processo que começou antes desta vida e não termina com ela. Quem passou pela experiência mística de ver um pedacinho que seja do que eu estou falando acha bastante estranho o conceito de “estar atrasado na vida”. É lorota.
A Roda Continua Girando
A alma – neshamá – é uma centelha que desceu.
Embora o processo doa, ela não desceu por punição. Ela desceu porque havia algo que só podia ser conquistado aqui embaixo, neste plano de contraste e resistência, neste mundo onde a Luz está oculta e precisa ser encontrada com esforço.
O Gilgul Neshamot – o ciclo das almas – não é uma roda de repetição sem sentido. Não é simplesmente girar. É o processo incremental. Imagine um metal sendo colocado no forno repetidas vezes, não para destruí-lo, mas para separar, a cada passagem, mais uma camada de impureza. O que retorna não é idêntico ao que partiu. É mais puro. Mais próximo da sua forma essencial.
A morte, segundo essa leitura, é um retorno à raiz da Alma – ao nível de Beriah, o mundo da Criação pura, onde a alma descansa e integra o que viveu antes de descer novamente, se ainda houver algo a retificar.
Eyn Sof, o Infinito, não tem pressa. O refino pode levar muitas vidas. O que importa é a direção, não a velocidade.
As Letras da Criação
O Sefer Yetzirah ensina que o mundo foi criado através de letras e números, ou seja, através de estruturas fonéticas e matemáticas que são anteriores à matéria. As vinte e duas letras do alfabeto hebraico não são apenas signos que representam sons, são energias primordiais. Combinações específicas dessas energias geraram frequências específicas, e essas frequências se tornaram o que chamamos de realidade física.
Por que o português soa como soa? Por que o árabe tem aquela fricção gutural? Por que o mandarim é tonal? Porque cada idioma é a assinatura acústica de uma combinação particular dessas energias primordiais, filtrada através de séculos de alma coletiva de um povo, de uma geografia, de um processo histórico de um tikkun específico.
Por que os continentes têm os contornos que têm? Por que a costa do Brasil parece encaixar na costa da África? Porque a geografia é a assinatura física de uma estrutura espiritual. O relevo, a água, a pedra: tudo isso é o pensamento do Criador tornado forma e matéria. Mas, em um certo sentido, o mundo é texto. Um código de letras que se tornou montanha, rio, e voz humana. Alguém escreveu este código e apertou no botão para “compilar e executar”, e cá estamos.
Quando você acha que algo no mundo parece demais com um símbolo, com um padrão, com uma coincidência grande demais, você não está delirando. Você está lendo. A questão é aprender o alfabeto.
Nahama DeKissufa: Por que escolhemos o sofrimento
Esta é a parte mais difícil do que eu vim aqui dizer, e também a mais libertadora.
Nahama deKissufa significa, literalmente, o pão da vergonha. O conceito é este: antes da criação deste mundo, a alma estava em total proximidade com o Eyn Sof. Recebia a Luz sem obstáculo, sem esforço, sem mérito. E isso causava vergonha. Não uma vergonha moral, mas uma vergonha ontológica. A vergonha de receber algo que não se conquistou.
A alma não queria ser servida, queria participar. Queria que a Luz que recebesse fosse, de alguma forma, sua.
Então nós descemos.
Escolhemos um mundo de contraste – dor e prazer, escuridão e luz, fracasso e conquista –, porque apenas em tal mundo o esforço tem significado real. Só aqui a Luz que você encontra tem o sabor de algo que você mesmo libertou de dentro de um caco escuro.
O sofrimento não foi imposto. Ele foi, num nível que a mente consciente não acessa facilmente, escolhido – porque sem ele, a vitória seria vazia. Você não está sofrendo apesar de ter escolhido existir. Você está sofrendo como parte da escolha de existir de um jeito que valha a pena.
O jogo é difícil porque você pediu que fosse. Para que o prêmio tivesse sabor.
Keter está acima. Malchut está aqui. E você está no meio – exatamente onde precisa estar. Shavua tov.

