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Saturno – A morte constante ou a vida eterna?
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Atualmente vemos a popularização de teorias da falam sobre um suposto culto saturnino que seria a "religião secreta das elites".
Nessa visão, Saturno é o deus secreto das elites de caráter predatório, o senhor do cubo negro, o arquiteto de uma grande prisão
cósmica onde as almas são acorrentadas a algo semelhante a toda de Samsara. O Demiurgo gnóstico. O senhor
do karma. O planeta dos judeus (sim, estas teorias chegam a apelar para velhas falácias antissemitas populares desde antes dos tempos medievais). A estrela de Renfã adorada em segredo
por aqueles que dominam o mundo e devoram crianças. Tudo isto em um roteiro digno de filme de terror cósmico.

Está narrativa vem adornada por fragmentos que apontam para supostas provas. A estrela de Renfã ou Quiún
mencionada em Amós 5:26 e retomada em Atos 7:43 é de fato identificada por biblistas com Kaiwan,
nome acadiano de Saturno. A associação entre Saturno e certas correntes do pensamento gnóstico existe
como dado histórico. O cubo como símbolo geométrico saturnal aparece em certas correntes
herméticas. Os fragmentos são reais, embora nao representem uma unidade entre estes episódios e muito menos indiquem necessáriamente a existênciado culto saturnino como descrito por estas teorias.

O grande problema destas teorias, parece estar no método. Essas teorias pegam pedaços genuínos de
tradições distintas, como as gnósticas, herméticas, astrológicas, bíblicas e os colam num único "monstro de Frankenstein pseudo-mistico"
sem distinguir época, tradição, mecanismo de transmissão ou hierarquia ontológica. O resultado é um culto reconhecível nos contornos, irreconhecível na substância. Uma abração que parece saída das mais insanas alucinações esquizofrênicas.

Este ensaio foi inspirado por meu cansaço em ver estas teorias se espalhando e divulgando esta caricatura. Não busco "reabilitar" Saturno, o deus
não precisa de defesa. Busco mostrar ao leitor que a face deste deus, é mais rica, complexa e mais
perturbadora (no bom sentido), do que qualquer teoria de conspiração consegue capturar. O que segue é
uma tentativa de cumprir esta missão.

O especulação central deste ensaio é simples de enunciar, mas difícil de sustentar sem que colapse em um
dualismo barato. Saturno me parece ser um único ser que se apresenta sob dois registros. Não real e falso, mas original e dependente.

O primeiro registro que desejo trazer é o de Aion, o deus grego do tempo eterno e primordial, anterior à manifestação. O segundo é o de Chronos, o Rei dos Titãs, o tempo histórico, este parece ser o reflexo do
eterno na ordem do que passa. Uma sombra não é falsa, ela é real, opera no mundo, tem substância.
Mas sua substância é derivada. Ela depende do corpo que a projeta ou serve de fundamento.

Todo o terror associado a Saturno, o devorador de filhos, o senhor da melancolia, o limitador, o ceifador, pertence ao registro deste que chamamos de "Chronos", isto é, um der saturnino operando como tempo histórico,
como o princípio que encerra o que gerou. Já o que podemos chamar de "Saturno áureo", o deus da
Idade de Ouro, o pai anterior à história, pertence ao registro de "Aion" ao qual "Chronos" é uma sombra.

"Na alquimia encontramos uma duplicação: Saturno é o 'antigo' e o 'divino'.. e ao mesmo
tempo é o Ouro invertido, o Chumbo, como o corpo vulgar." - Julius Evola, A Tradição Hermética.

​"No homem, antes de qualquer outra coisa, existe um ser celestial, também chamado de ser saturniano, ou simplesmente Saturno. É através dele que a força da 'Terra' age, a qual determina e mantém a densidade ou o peso (o nosso chumbo…) Este é o corpo animal duro e tangível (ossos, cartilagem, as partes mais duras de nós…)" - Julius Evola, A Tradição Hermética.

Saturno-ouro-eterno é a "matriz eterna", o ser celeste antes do inícioda da obra, ou de qualquer outro processo. Saturno-Chumbo é o corpo denso, a
matéria prima que deve ser transmutada. Saturno é/representa a matriz eterna
dos corpos individuais, e por isso, sendo eterno enquanto eles são efêmeros, pode aparecer como "o deus
que, após tê-los criado, os devora".

Para nomear o que vejo como o aspecto "positivo" (não interprete como algo tão moral) de saturno, isto é, Saturno-Aiono, o princípio original, como um "pai oculto", usarei uma figura que tradição persa
oferece como o modelo mais preciso: Zurvan.

Zurvan é a divindade zurvanita do Tempo Infinito, eterno e primordial, o pai cosmogônico neutro, anterior à própria
polaridade Ahura Maszda/Ahriman. No mito central dessa tradição, Zurvan sacrifica por mil anos desejando um filho.
Uma dúvida momentânea sobre a eficácia do ritual gera Ahriman, o princípio do "mal". Ahura Mazda
nasce do próprio sacrifício,o princípio do "bem". Os dois são filhos do mesmo pai: um é fruto da devoção e
outro da hesitação. Zurvan então se retira. Não sendi destruído e muito menos derrotado, simplesmente cede o campo a seus próprios filhos.

Vale notar que o zurvanismo é estruturalmente distinto do dualismo zoroastriano ortodoxo, onde as forças da luz e das trevas são co-eternas e
opostas desde a origem. A heresia persa zurvanista resolve um problema que o dualismo deixa em aberto, este é, de onde vem o
mal: "se o princípio do bem é originário?", A resposta zurvanita é introduzir um pai anterior à polaridade, que assume uma postura de justiça e lei sobre os dois porque gerou ambos os lados.

Agora eu gostaria de analisar o Mitraismo, afianl, me parece que uma das evidências arqueológicas mais diretas da centralidade de Saturno num culto de mistérios vem do
Mitraísmo. A figura leontocéfala, homem com cabeça de leão, corpo envolto por serpente em espiral,
asas abertas é chamada nas fontes especializadas de "Saturno mitraico" (vale notar que a mesma fonte que usei apresenta objetos arqueológicos que dão a entender se tratar de um "Ahrima mitraico").
A estátua de Óstia (190 d.C.) é o exemplar mais estudado. A figura segura chaves e cetro, à sua
base aparecem o martelo e tenaz de Vulcano, o galo, a pinha de Esculápio, o caduceu de Mercúrio,
todos os poderes divinos reunidos numa única figura. Vermaseren, um dos maiores especialistas nos
estudos mitraicos, afirma que os sacerdotes davam a Saturno ainda mais peso do que a Netuno-Oceano,
identificando-o com Kronos, com Chronos, com o persa Zervan e com o grego Aion. Além destas evidências, vale lembrar o leitor que o grau iniciático mais alto do Mitraismo era justamente o sétimo grau, associado ao sétimo céu (céu saturnino), este grau era chamado "Pater" e fazia referência a Saturno.

Horapollo nos Hieroglyphica (séc. V d.C.). distingue dois símbolos serpentinos que habitualmente são
confundidos: O primeiro é o Ouroboros, a serpente que morde a própria cauda, semelhante a um círculo fechado da
autodevoração. Serviu, comentando a Eneida (5.85), confirma que os egípcios simbolizavam o ano com
essa serpente "porque recorre sobre si mesma". O Ouroboros é o símbolo do Kosmos, do ciclo material
que se consome para se renovar. o registro que aqui, ligo Chronos. O segundo é a serpente de Aion, enrolada em círculo, mas escondendo a cauda atrás do corpo,
sem morder ela. É o ciclo que contém a eternidade sem a autodevoração, o registro Aion. A diferença da imagem desta e da primeira é sutil, mas muda completamente o significado final, assim como a distinção entre "Saturno-Aion" e "Saturno-Chronos". Não é de se estranhar que está distinção pareça ser confusa e que este deus tão sombrio seja, de fato, o mais obscuro e o mais incompreendido.

Karneios, que era o nome pelo qual os dóricos conheciam Apolo, o deus solar com chifres (não confundir sua natureza com a do titã Helios, este. Estes dois se tratam de "sóis diferentes"), supostamente ligado ao "Karn" ("lugar elevado"),
símbolo da Montanha Sagrada do Polo. Apolo governa Hiperbórea, o espaço além do Norte, das sombras do gelo e da morte, aonde
segundo as fontes gregas (Píndaro, Heródoto, Diodoro Sículo) o deus passa os meses de inverno e o sol
nunca desaparece por completo, um local elevado aonde o tempo não alterna e se vive sobre a presença eterna deste deus.

Kronos e Karneios, o epíteto solar de Apolo, eram originalmente um único
nome segundo Rebé Guénon A raiz comum é, segundo Guénon, "KRN", que indica "poder" e/ou "elevação". O nome Kronos, em seu sentido de elevação/elevado, é
perfeitamente adequado para Saturno, que corresponde, nas cosmologias antigs, à esfera planetária
mais alta, novamente digo que, o céu mais elevado era o saturnino, o mais próxima das estrelas fixas, na fronteira entre o cosmos visível e o que está além da criação.

A identificação de Kronos com Chronos (o titã do Tempo) é uma assimilação fonética tardia e aparentemente errônea, as
raízes dos dois nomes são distintas. Os pitagóricos, nota Guénon, conheciam Kronos no sentido
positivo, associando o ao Céu e ao consorte de Rhea à Terra, encontrando nessa correspondência a ideia de elevação.

A imagem que emerge destas afirmações é a de um único deus/nome. Kronos-Karneios: o pai
solar chifrada, que dá limite/forma e elevação, deus da esfera mais alta e do polo imóvel (Axis Mundi). A história posterior separou
esse nome em dois, Kronos ficou com o aspecto devorador e temporal, sendo agora ligado a Chronos, Karneios-Apolo ficou com o
aspecto solar e polar.

Portanto, ao reduzir Saturno a um "Demiurgo predatório devorador de crianças adorado por elite". os teóricos da conspiração modernos mostram que estão presos apenas à sombra de Kronos e ainda operando sobre o eixo Saturno-Chronos em vez de Saturno-Kronos-Karneios, ou sobre Saturno-Leontocéfalo-Aion. Eles são incapazes de enxergar que, por trás do chumbo e da paranoia, reside um deus/elemento complexo, porém, que guarda uma grande recompensa em seu centro, o ouro que é o princípio da eternidade (imortalidade). A verdadeira elite espiritual do passado não adorava uma prisão cósmica carcereiro, mas buscava a transmutação do chumbo em neste ouro de Aion.

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