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O Império Que Ameaça Nunca Ser
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por Astral Traveller

Muita gente tem genuinamente roído as unhas pela perspectiva de poder o Brasil entrar num ciclo de pobreza similar aos dos tradicionais aliados do PT na América Latina. O roteiro é conhecido: um governo populista de esquerda gasta muito mais que arrecada, não disciplina as contas públicas, e quanto menos a moeda passa a valer, mais o governo dobra a aposta nos mesmos erros.

Apenas em benefício do argumento, vamos ignorar que, atualmente, os EUA parecem interessados num “novo plano Marshall”, e que isso traz seu próprio peso e variável a um cenário já bastante complexo. Essa aproximação de Washington significa, na prática, que os americanos estão de olho na América Latina e dispostos a dar uma ajuda econômica a governos alinhados, a exemplo da Argentina de Javier Milei. Mas aqui, estou interessado em abstrair e isolar a variável “Brasil por si mesmo”. Com toda a honestidade, eu não vejo o Brasil entrando exatamente no mesmo ciclo de escassez de uma Venezuela, por exemplo. Isso não significa que a situação não possa se deteriorar, e muito.

O poder de compra do brasileiro comum, autônomo, profissional liberal, pagador de impostos, sem patrocínio do estado por qualquer via, está em vias de lenta erosão. Os principais vetores disso são: um sistema de previdência que se encaminha à falência com o agravante de já ter perdido o bônus demográfico; um sistema administrativo inflexível a corte de gastos e “direitos adquiridos” para funcionários públicos; e um ambiente de negócios que, com um corpo de normas e aplicações maluco, pune inovação e empreendedorismo honesto. Cada peso que se adiciona a este bolo é um peso que se compõe à inflação e ao custo de vida.

Isto não significa que o Brasil deve virar uma Venezuela: na verdade, ele se encaminha para virar… o Brasil. Um Brasil piorado. Isso é assim porque este é um país com características bastante distintas. Somos o epicentro do agronegócio global, onde o complexo da soja responde por cerca de 40% das nossas exportações agrícolas, seguido pelas carnes (bovina, frango e suína) com aproximadamente 15%, e o setor sucroalcooleiro com cerca de 10% – uma máquina produtiva hipertrofiada que garante um fluxo constante de dólares para o Banco Central, independentemente do desastre que seja a política interna.

Não entenda mal. O Brasil é gigante e, socio-historicamente falando, tem características de um império. Possui uma massa territorial contínua de dimensões continentais, ausência de rivais geopolíticos diretos nas suas fronteiras, uma população de mais de 200 milhões de habitantes que compartilham o mesmo idioma e uma cultura relativamente homogênea, além de autossuficiência em recursos hídricos, energéticos e minerais. Em termos de escala e isolamento estratégico, o Brasil tem o desenho natural de uma superpotência isolada. Por tudo isso mesmo, o fazendão do mundo não tem como quebrar, mas tem como sangrar mais e pesar mais para quem o sustenta.

Tudo isso parece convergir para uma conclusão: nós não vamos virar miseráveis subnutridos e sem papel higiênico. Nós vamos virar uma classe média bastante empobrecida, trabalhando bastante só para comer tudo do duvidoso e sem direito a perspectivas mais amplas típicas de uma classe média. Ayn Rand observou que a classe média autônoma é aquela que mais inova e que efetivamente cria a economia. Alguém poderia acrescentar que o crescimento na era americana é baseado justamente em inovação. Se o que restou a nós é o achatamento de tudo, da qualidade e das perspectivas, que efeito isso terá em qualquer expectativa de crescimento? Temos aqui um império que nunca ameaçou ser nada; na verdade, um império que ameaça nunca ser.

É claro, esse é o cenário em que as variáveis atuais ficam constantes. Na prática, quem se sentir lesado por esse achatamento pode muito bem reagir e tentar mudar os rumos do jogo – com maior ou menor sucesso. Mas a mecânica dessa reação já é assunto para outro dia.

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